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Río Ewan (portugués) 

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A Terra do Fogo conta com inúmeros rios e arroios. Destes, apenas uma pequena proporção abriga em suas águas a espécie de truta pela qual é mundialmente conhecida: a truta marrom migratória, também conhecida pelo nome em inglês “sea run brown trout”. O pesqueiro mais importante desta espécie (Truta Marron = Salmo fario) é o famosíssimo Rio Grande, conhecido mundialmente pela quantidade e tamanho das trutas ali pescadas ano após ano e para quem está disposto a pagar o “coto” (NT: do espanhol baliza, ou seja áreas privativas previamente demarcadas, que são adquiridas pelos pescadores estrangeiros, podendo superar os U$ 1.000,00 diários, em função do “coto” e da época do ano) e suportar o frio e o vento patagônico, agravados pelo efeito da latitude. Outros pesqueiros importantes são o rio Menendéz (De la Turba), Irigoyen, o Malenguena . Menos conhecidos temos ainda o San Pablo e o Láinez. Os três primeiros são de acesso privado, salvo um trecho do Menéndez. A parte, temos o rio Ewan Sul, que é meu rio preferido e tema deste informe.

O Ewan é um rio que nasce do degelo da cordilheira, mais precisamente no lago Hantuk (nesta altura forma-se principalmente pela união de numerosos arroios de pequeno porte). Depois de percorrer aproximadamente 100km, deságua no Mar Argentino, no cabo Ewan. É um rio cheio de meandros, similar ao Salado de Buenos Aires, mas de menor vazão e correnteza. Suas águas, quando comparadas a um rio típico da cordilheira, são pouco transparentes. A paisagem do seu entorno é bastante aberta, pois se acha localizado na zona de transição (ecótono) entre o bosque e a pradaria. É portanto, um lugar onde predominam as pastagens, com capões de bosque compostos principalmente por ñire (Nothofagus antarctica). Em muitos destes lugares, as árvores estão cobertas pelas tradicionais “barba-de-velho”, que nada mais é do que um líquen pertencente ao gênero Usnea. Isto sugere ao viajante um ambiente místico-misterioso-fantasmagórico, que associado à solidão deste local, se materializa ao escutarmos o relinchar de um guanaco que espia por entre os arbustos. Por isto, este local tem um paradouro cujo nome é “Bosque de los Brujos”.

Ao longo de seu percurso, podemos encontrar as seguintes espécies de trutas: Salmo fario (truta marrom em suas duas variantes, residente e migratória) e Salvelinus fontinalis (truta de arroio ou também “brook trout”). A diferenciação entre residente e migratória é um pouco artificial, como todas as tentativas de ordenar a Natureza. Quando as trutas marrons ficam um período nos rios, adquirem a sua coloração escura característica e quando estão em águas abertas, como um lago ou o mar, ficam prateadas. Chamamos as primeiras de residentes e as seguintes de migratórias. Desconheço a existência de trutas arco-íris porque nunca pude pescar uma, embora saiba que foram introduzidas e caso existam, são bem poucas.

Com respeito à pesca, me atrevo a dividir o rio em três partes, segundo minha experiência de pesca (1%) e o que consegui averiguar (99%). Esta divisão se daria da seguinte maneira:

a) Pampa Del Tonité

b) Zona desde a ruta 3 rio abaixo até o parador “Las Carretas”

c)   Zona compreendida entre “Las Carretas” e o mar

Rio acima do Tonité, podemos encontrar alguns pescadores, principalmente em umas pequenas lagoas que deságuam no rio, más como desconheço esta parte, deixemos para outra oportunidade.

Pampa do Tonité

Esta zona se encontra a uns 80 km da cidade de Rio Grande. Seguindo na direção Norte-Sul, se cruza uma ponte sobre o rio, chamada de Puente Justicia, onde há um destacamento policial e um camping. Alguns quilômetros mais além, se observa à direita um vale por onde corre o rio. Há um cartaz de local panorâmico para fotografar que diz: “Rio Ewan”. Neste local começamos a percorrer o rio e em menos de uma hora estaremos no local dos poções. Aí, o rio corre suavemente e os poções são fáceis de localizar, sendo do tipo clássico que se forma nas curvas do rio. Tem mais de 20, separados por uns 100 ou 200 metros cada um. Aqui se pesca exclusivamente trutas de arroio (brook trout) e como é um local bastante freqüentado, os tamanhos não são grandes, em média de 1,0 kg. Porém, existe uma população bem elevada, proporcionando uma ótima recompensa pela caminhada. As trutas não são muito exigentes e atacam qualquer mosca que apresentemos. A dica é fazer o lançamento dentro do poção e esperar alguns instantes para que a mosca afunde e quando esta chegar ao ponto desejado, inicia-se o recolhimento de forma lenta e suave.

Entre a estrada e “Las Carretas”

Esta zona vai desde a “ruta três” na “Puente Justicia” até um local onde encontramos uma ponte para o gado, que está montada sobre rodas de carreta para ser posicionada sobre o rio devido a alguma circunstância. Para ir pescar nesta zona, devemos lembrar que estamos em uma propriedade privada, devendo tomar um grande cuidado para abrir e fechar “sempre” as porteiras. O Ewan é um dos poucos locais da ilha onde se pode capturar exemplares de grande porte com uma certa liberdade, devendo receber uma consideração especial. Não pesquei muito nesta zona, mas baixando o rio, encontramos alguns poções muito bons, num local compreendido na desembocadura de um arroio (“Arroyo Capelo”). Aqui já é uma zona de prateadas e nas duas primeiras semanas da abertura da temporada ( 1o de novembro) existe a possibilidade de fisgarmos um “cocodrilo” (NT. Peça de grande porte e assim chamada de crocodilo pelos mosqueiros argentinos) inesquecível. O maior problema é a grande quantidade de pescadores, sendo que os primeiros tomam conta dos melhores poções. Uma certa vez, pude presenciar a dois pescadores que permaneceram 12 horas no mesmo local!!. Até me aproximei mais do que de costume para ver se não estavam mortos. Aqui o rio não é muito largo (cerca de 20 metros), mas corre com um pouco mais de velocidade do que antes. Os poções não são fáceis de detectar, pois salvo um ou dois que se localizam nas curvas, os demais são falhas no fundo do rio, canaletões geralmente paralelos à margem. Alguns são bem pequenos, mas podem abrigar um par de trutas bem grandes.

Entre “Las Carretas” e o Mar

A primeira vez em que pesquei o Ewan, cheguei depois de uma longa caminhada de 4 horas pela beira da praia. Fazia pouco tempo que vivia na Ilha e tudo era novidade para mim. Caminhar pela praia na Terra do Fogo pode ser uma experiência única. Se o tempo ajudar, podemos observar guanacos ou toninhas apenas com uma mudança no olhar. A cada pouco, escapa uma raposa em disparada, desviando da vegetação. É o único lugar do país onde a mata chega junto ao mar. As praias são de areia fina, mesclada com pedras, refugio de ma infinidade de organismos, entre eles polvos, anêmonas, caranguejos, esponjas, entre outros. O simples fato de poder desfrutar desta maravilha da natureza, que muitos não acreditam ser possível de existir nestes lugares, é uma grande recompensa. No ar, muitas vezes os condores nos vigiam. Enquanto caminhava neste dia, me aproximava do cabo Ewan, onde o rio desemboca no mar. Vez por outra, os restos de alguma construção o algum pedaço de madeira trabalhada por algum desconhecido, sugeriam algum naufrágio em tempos passados. Os osso de toninhas que branqueavam algumas zonas da praia, aumentavam a minha sensação de solidão. Finalmente cheguei ao destino arduamente perseguido e me pareceu o lugar mais belo que já havia conhecido até aquele momento. Era a primeira vez que podia observar como um rio desembocava no mar. A maré estava baixa e o Ewan baixava límpido. As gaivotas e outras aves se misturavam nos últimos 100 metros de seu percurso. Naquela feita, ainda não praticava o flyfishing e a única peça capturada, por meu companheiro de pescaria naquele lindo dia, foi devorada por uma destas gaivotas. Não sabíamos aonde pescar nem de que maneira. Ficamos apenas duas horas, devido à mudança na maré, que poderia nos causar algum transtorno no caminho de volta. Uma semana depois retornei àquele local e fiquei por 4 dias. Chovia e fazia muitíssimo frio. Pescava um pouco e corria para a barraca, para tentar recuperar um pouco do precioso calor perdido. Assim foi, até que vestindo minha última muda de roupa seca, veio o melhor. Fisguei 8 trutas em 30 minutos, uma após a outra. A maior, quase 7 kg. E a menorzinha, pesava 4kg. E outra vez veio a calma. Quando notei estava novamente ensopado e sem minha jaqueta. Aquelas recordações ficaram vivas por dois meses, pela tosse de cachorro que não me abandonou neste período. Mas foi sem dúvida a melhor meia hora da minha carreira de pescador.

Depois de ir várias vezes, comecei a aprender as manhas e ser mais objetivo em minhas iniciativas. Comecei então com o fly, sendo que meus dias tem sido bons e ruins quanto à pesca. Mas meu coração sempre bate mais forte a medida que o molhes do cabo Ewan vai preenchendo meu campo visual a cada saída de pesca, Quando regresso, exausto da caminhada, embarrado, faminto e com frio, o único pensamento que me contagia é que “semana que vem vou novamente”. Este pensamento vem a minha cabeça principalmente quando estou embaixo do chuveiro, descongelando meu corpo exausto.

Com respeito à pesca, temos que observar a variação das marés. A melhor época, além da abertura da temporada, é em fevereiro. Os maiores exemplares que vi nos últimos anos chegam perto dos 9 kg, sendo que o normal é de 3 a 5 kg. Geralmente se pesca bem uma hora antes e uma depois da vazante, mas isto é relativo à amplitude que ocorre neste momento. Generalizando, o rio tem que baixar “limpo”. Quando enche, ocorre o ingresso de algas que irão retornar ao mar durante a vazante, impossibilitando qualquer tentativa de pescar. Junto com as trutas é possível capturar “robalos”, que são uma espécie de peixes marinhos que lutam de maneira surpreendente, podendo chegar alguns exemplares aos 8kg ou mais.

Quanto às linhas, as mais adequadas são as FSIII, com líder longo. A técnica de pesca consiste em arremessar perpendicularmente ao poção e deixar a linha derivar, repetindo-se a operação, tantas vezes quanto necessário. Quando temos sorte, teremos uma bela fisgada. Uma característica das trutas aqui é que existem várias em cada poção, sendo normal pescar mais de uma, quase em seguida. Outras vezes podemos vê-las, saltando ou movendo-se perto da superfície, mas não há maneira de faze-las beliscar. E ao nosso lado, o companheiro pescando com colher não deixa de capturar alguma peça. E as vezes a situação se inverte também, sendo assim que cada jornada é um novo aprendizado e nunca uma frustração.

As moscas mais utilizadas são: rabbits com pelo de coelho tingido de cores vivas, preferencialmente o verde claro, branco ou amarelo e similares; montanas com o corpo terracota e o tórax vermelho e algumas variações desta, como rubber legs. Por incrível que pareça, não se usam muito as moscas pretas, como é o caso do rio Grande.

Como conselho, recomendo os cuidados com o equipamento, durante e após a pesca. O leito do rio é composto de sedimentos argilo-arenosos, e este material pode penetrar na carretilha e adere à linha. Esta combinação é mortal para os passadores da vara. Arruinei os meus em apenas duas saídas de pesca. Não esqueçamos que a água é salgada e devemos lavar o equipamento com abundante água doce e lubrificar a carretilha. Devemos lavar também a linha e aplicar algum tipo de “line dressing”.

Por fim eu diria que o Ewan é um destes rios que as vezes nos maltrata, mas para aqueles que sabem desfruta-lo, cedo ou tarde mostra a sua melhor cara, e ficamos obcecados e sonhadores.   

                                                  Miguel Angel Casalinuovo miguelush@hotmail.com

 
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